Notícias | 22/04/2014


Por que as obras da Copa são tão perigosas?

O One World Trade Center está pronto, após oito anos de construção. Deverá ser reaberto ao público até o fim de 2014. Com 104 andares e 541 metros de altura, é o terceiro edifício mais alto do mundo e também o mais caro, ao custo de R$ 8,9 bilhões. Esses números, embora impressionantes, não dão conta da complexidade do projeto. Sucessor das Torres Gêmeas, derrubadas em 11 de setembro de 2001, o 1 WTC foi erguido no coração de Nova York, nos Estados Unidos.

Para as fundações não abalarem estruturas vizinhas, como arranha-céus e uma linha de metrô, parte das escavações foi feita à mão. Quando o Furacão Sandy atingiu a cidade, em outubro de 2012, o canteiro de obras foi alagado por 470.000 litros de água. Acidentes ocorreram. Após oito anos, os 10 mil operários envolvidos na obra estão a salvo. Ninguém morreu na construção de um dos edifícios mais complexos da história. Já no Brasil...

"Estádios são obras relativamente simples", disse a presidente Dilma Rousseff, em janeiro, ao afirmar que, apesar dos atrasos, as instalações da Copa ficariam prontas a tempo. Dilma tem razão sobre a relativa simplicidade de erguer um estádio. Isso só reforça a incompetência do país para promover o evento e, mais que isso, garantir a segurança na construção civil. Ainda em andamento, as obras dos estádios da Copa do Mundo e de seus prédios anexos já mataram oito pessoas: uma em Brasília, quatro em Manaus e três em São Paulo.

A oitava morte ocorreu no último dia 29, em São Paulo. Fabio Hamilton da Cruz, de 23 anos, trabalhava na montagem de duas arquibancadas provisórias destinadas a ampliar a capacidade da Arena Corinthians, também conhecida como Itaquerão, para receber a partida de abertura da Copa do Mundo. Cruz perdeu o equilíbrio e caiu da estrutura, a 8 metros de altura. Morreu horas depois, no hospital. Ele era funcionário da WDS Construções, empresa terceirizada contratada pela Fast Engenharia para montar as arquibancadas temporárias.

Por que os estádios brasileiros matam tanto, enquanto uma obra complexa, o 1 WTC, não matou ninguém? A primeira resposta é a pressa. Nos Estados Unidos, tempo não era problema. O One World Trade Center ficou pronto com anos de atraso, em relação à previsão inicial, de 2004. O trabalho foi interrompido por fatores diversos, como encontrar na escavação objetos de vítimas do atentado de 2001. O atraso não afetou a rotina no canteiro de obras de Nova York.

Para a Copa do Mundo, o tempo é curto. Embora tenha sido escolhido como anfitrião da Copa em 2007, o Brasil só começou a construir o Itaquerão em 2011. Com ingressos vendidos e contratos de transmissão para o mundo todo assinados, o primeiro jogo precisa ocorrer em São Paulo, no dia 12 de junho, às 17 horas. "Estamos trabalhando com o cimento ainda molhado", disse em março o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. O superintendente regional do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Luiz Antônio de Medeiros, admite que fiscalizar a segurança não é prioridade.

"Se esse estádio não fosse da Copa, os auditores teriam feito um auto de infração por trabalho precário e paralisado a obra", disse. "Fazemos de conta que não vemos algumas coisas irregulares." Desprezar a segurança em nome da pressa é uma aposta arriscada.

Em nota, a Odebrecht, responsável pelo Itaquerão (exceto pela arquibancada provisória onde ocorreu o ultimo acidente), afirma que, doravante, "reúne os funcionários para o treinamento de segurança, com orientações sobre as medidas preventivas e atividades planejadas para executar no canteiro que merecem atenção especial". A Andrade Gutierrez, construtora dos estádios de Manaus e Brasília, afirma que, "em cada um dos episódios, foi realizada uma auditoria interna - acompanhada por um comitê de segurança - para apurar as causas dos fatos, rever procedimentos e reforçar o tema junto aos funcionários". "Infelizmente, mesmo tendo o equipamento disponível, muitas vezes alguns trabalhadores realizam suas funções sem usá-lo corretamente", diz a Andrade Gutierrez.

Uma explicação é a fiscalização menos incisiva das obras no Brasil. O Estado abriu frentes de obras em todo o país, sem reforçar na mesma medida o poder de acompanhá-las. A construção civil é o segundo setor com mais acidentes de trabalho no país, atrás apenas do transporte rodoviário. Nos últimos anos, o número de acidentes de trabalho ocorridos nos canteiros de obra no Brasil cresceu de 20.336 acidentes, com 138 mortes, em 2010, para 22.382 acidentes e 177 mortes, em 2011, segundo o Ministério da Previdência Social.

"As obras do Programa de Aceleração do Crescimento, da Copa do Mundo e da Olimpíada aumentaram a demanda por operários", diz Philippe Gomes Jardim, coordenador nacional de Defesa do Meio Ambiente e Trabalho do Ministério Público do Trabalho da União. "O aumento da atividade não foi acompanhado pelo reforço na capacidade de fiscalização."

Finalmente, nos países ricos, negligenciar a segurança no canteiro de obras é uma aposta mais cara que no Brasil. "Num mercado competitivo, empreiteiras mais seguras conseguem pagar menos para atrair funcionários e perdem menos com atrasos", diz Henry M. Koffman, diretor de engenharia civil da Universidade do Sul da Califórnia. O código de construção civil de Nova York, atualizado em 2008, exige das construtoras a contratação de auditores independentes.

Em março, o Estado da Califórnia multou em R$ 50 mil uma empreiteira de San José, porque um motorista não puxou direito o freio de mão de um caminhão, que acabou por atropelar duas pessoas. Entre o acidente e a punição, passaram-se cinco meses. No Brasil, a Justiça tarda. A morte do operário José Afonso de Oliveira Rodrigues, em março de 2012, na obra do estádio Mané Garrincha, ainda não rendeu indenização a seus familiares.

Fonte: Época – Revista Proteção